Habitação

Crise habitacional nas grandes cidades: o déficit que não para de crescer

O déficit habitacional brasileiro atingiu 8,2 milhões de famílias em 2025, segundo levantamento divulgado pela Fundação João Pinheiro em parceria com o Ministério das Cidades. O número representa um aumento de 4,3% em relação ao levantamento anterior e revela que, apesar dos programas habitacionais das últimas décadas, o problema não apenas persiste como se aprofunda nas regiões metropolitanas.

O relatório, que analisa dados do Censo 2022 e de pesquisas domiciliares posteriores, mostra que 73% do déficit está concentrado nas famílias com renda de até dois salários mínimos — o que evidencia que o problema é fundamentalmente de acesso econômico, não de falta de imóveis no mercado.

"Temos um mercado imobiliário que produz muito, mas produz para quem pode pagar. A população de baixa renda fica para trás e vai para as periferias, para as áreas de risco, para os cortiços", explica a urbanista Ermínia Maricato, uma das maiores especialistas em habitação social do país.

Onde o problema é mais grave

São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza concentram juntas 31% do déficit nacional. Mas o crescimento mais acelerado está em cidades médias do interior — um fenômeno que pesquisadores associam à expansão do agronegócio e à migração de trabalhadores para regiões que não têm infraestrutura habitacional para absorvê-los.

Nas favelas e comunidades informais, o problema tem uma dimensão adicional: além da falta de moradia, há a insegurança fundiária. Famílias que vivem há décadas num lugar não têm garantia legal de que não serão removidas. "Sem regularização fundiária, não há investimento, não há melhoria, não há dignidade", diz o advogado popular Flávio Villaça.

O que o governo está fazendo

O programa Minha Casa Minha Vida, relançado em 2023, contratou 1,2 milhão de unidades habitacionais até o fim de 2025. É um número expressivo, mas insuficiente diante da magnitude do déficit. Especialistas apontam que, no ritmo atual, seriam necessários mais de 20 anos para zerar o déficit — sem contar o crescimento natural da demanda.

Além da quantidade, há questões de qualidade e localização. Muitos empreendimentos habitacionais populares são construídos em áreas periféricas sem acesso adequado a transporte, saúde e educação — o que transfere o problema sem resolvê-lo.

A solução, dizem os especialistas, passa por uma combinação de produção de novas unidades, regularização fundiária, urbanização de favelas e políticas de aluguel social. Não há bala de prata. Mas há urgência.

LB

Luciana Barros

Editora de economia urbana. Mestre em planejamento urbano pela PUC-Rio, escreve sobre o impacto das políticas públicas na vida das pessoas.